Mais uma vez sentada na mesma mesa. Como sempre se sentia estranha. Estrangeira em próprio território. Desconhecia os espaços, os limites. Vivia constantemente o conflito entre o interno e o externo. Entre o contato e a invasão. Queria se relacionar, mas só até certo ponto. Queria estar só, mas só até certo ponto. Queria estar bem só, queria estar bem junto.
Precisava estar só para saber quem era e quando se dava conta de quem era, queria compartilhar, mas a partir do momento em que não estava mais só, já não se lembrava de quem era, porque sob a presença do externo sua identidade se ocultava. Precisava estar novamente só para poder ser ela mesma.
Gostava de estar no estrangeiro, porque lá era normal se sentir estranha. As pessoas até lhe perguntavam sobre como se sentia a respeito da diferença, queriam saber sobre as diferenças e seu ponto de vista sobre as coisas. Ela se lembrava de sua casa na terra natal, lugar distante onde todos pareciam sorrir, onde todos acreditavam em sonhos, acreditavam em espíritos e no sentido esotérico das coisas. Mas agora se sentia perdida. Sua identidade que parecia antes tão forte, seus princípios e decisões haviam desaparecido, estavam diluídos nos rostos sorridentes de lembranças. Os rostos continuavam sorrindo, todos acreditavam ainda nos sonhos, mas pareciam não viver na realidade. Agora não sabia mais distinguir as fantasias da realidade, as lembranças pareciam velhas fantasias de infância. A realidade lhe parecia uma prisão.
Sonhava em voar. Parecia estar sonhando, não sentia mais o cheiro da terra, já não escutava a voz interna que ditava seus sonhos.
Sonho e realidade se misturam. Cores e pessoas, imagens e lembranças. Tudo difuso em um grito aprisionado no peito.
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