Odeio branco, não agüento fundos brancos, nem paredes, nem roupas. Também não agüento tempos sem vento. Na verdade não conheço bem tempos sem ventos, mas às vezes vem uma calmaria branca aguda que me deixa desorientada.
Sonho sempre com tempos sem ventos, eu com um vestido branco, caminhando sem destino, sem tempo, sem contexto.
A verdade é que isso não funciona. Sempre que vem essa calmaria e eu posso direcionar meus ventos internos não sei aonde ir. Um pássaro nunca voa por muito tempo sem destino.
Lutei durante alguns anos contra uma fase roxa. Ela veio calma e tomou conta de tudo. Depois me vi aprisionada nos seus tons e tentei me libertar. Meu objetivo é sempre alcançar o verde, objetivo que nunca alcanço porque o azul sempre me contagia antes que isso aconteça.
Sou azul por natureza, talvez por causa do céu, que me dá a sensação de poder escolher os destinos. Mas sem vento meu azul se torna roxo.
Voei, voei entre zonas e bairros de São Paulo, voei entre sonhos e pesadelos. Senti a adrenalina, senti minha agressividade mudando de faixas, era eu parte do todo. As motos passando como moscas, zumbindo ao passar, buscando frestas em uma cidade já sem espaços, cumprindo sua função orgânica de sobrevivência. Demarcando o nascimento de uma nova espécie urbana.
E o vento. O vento de São Paulo é violento. A cidade é mais violenta que sua criminalidade, que seus pecados originais. Estar em São Paulo é sentir violência entrando por todos os poros, tomando conta dos pensamentos e movimentos.
Voltei. Durante todo o tempo em São Paulo me senti estranhamente em casa, como não me sentia há pelo menos 7 anos. Mas nos últimos dias me lembrei da vida pacata da Europa, ordenada, silenciosa... e ao me lembrar disso, desejei estar de volta.
Voltei. Tudo estava como esperado. O velho cheiro de Europa, as poucas pessoas nas ruas, os poucos sons de carros. Minha casa, eu, meus sonhos inacabados, mal começados.
Não há vento. Em mim sim. Sinto um vulcão em erupção, mas sem abertura.
Sem vento.
1 comment:
até assusta.. essas ultimas frases parecem premonicao. um vulcao em erupcao, sem abertura, sem vento... da medo.
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